3# BRASIL 22.4.15

     3#1 O HOMEM DOS PRESIDENTES
     3#2 OS TUCANOS SOBEM O TOM
     3#3 O JURISTA QUE TEM LADO
     3#4 O QUE , O QUE ...
     3#5 PROPINA RADIOATIVA

3#1 O HOMEM DOS PRESIDENTES
A priso do tesoureiro do PT, Joo Vaccari, mostra que o partido atuava no governo como uma organizao criminosa e envolve a campanha da presidente Dilma Rousseff no escndalo da Petrobras.
DANIEL PEREIRA, ROBSON BONIN E HUGO MARQUES

     No comeo deste ms, a presidente Dilma Rousseff fez uma pausa em sua agenda de trabalho para discutir o rumo das investigaes do petrolo, o maior esquema de corrupo da histria do pas. Numa conversa reservada, ela se mostrou impressionada com os depoimentos prestados por Pedro Barusco, o ex-gerente da Petrobras que acusou o PT de embolsar at 200 milhes de dlares em propinas arrecadadas de fornecedores da companhia. Sobre a forma, a presidente disse que Barusco era detalhista e organizado. Sobre o contedo, foi taxativa: "Ele entregou o Vaccari", declarou, referindo-se ao tesoureiro petista, Joo Vaccari Neto. Para a surpresa do interlocutor, a presidente no demonstrou apreenso. Depois de afirmar que o tesoureiro no tinha relaes polticas com ela, Dilma insinuou que, se algum deveria estar preocupado, esse algum era o ex-presidente Lula. Naquela mesma semana, em um encontro em So Paulo, o antecessor tambm se fez de desentendido. A um petista graduado, Lula, mais uma vez, representou seu papel predileto, o do Capito Renault, que no clssico Casablanca embolsa um envelope com seus ganhos na noite enquanto finge surpresa com a descoberta do cassino em funcionamento no Rick's Caf. Disse Lula Renault: "Eu quero saber se tem rolo nessas transaes".
     Desde 2003, quando o PT assumiu o poder, Lula nunca sabe de nada. No caso do petrolo, no  diferente. Desde a eleio passada, Dilma lava as mos sobre o esquema de corrupo e posa como saneadora da Petrobras. Os dois querem se afastar de Vaccari, mas as informaes colhidas pelas autoridades mostram que o "Mochila"  ou Moch, como o tesoureiro era chamado   um operador a servio dos dois presidentes. Um operador que agora est preso e, na condio de investigado e encarcerado, tende a aumentar o desgaste da imagem do governo, do PT e de seus dois principais lderes. No fim do ano passado, o detalhista Barusco declarou s autoridades que agiu em parceria com Vaccari e o ex-diretor da Petrobras Renato Duque a fim de levantar dinheiro sujo para os cofres petistas. Vaccari nunca explicou por que se reunia tanto com Barusco e Duque, e sempre insistiu na tese de que as empreiteiras fizeram doaes ao partido dentro da lei. Se no mensalo tudo no passara de caixa dois, como alegara Delbio Soares, o primeiro tesoureiro do PT preso, no petrolo tudo seria caixa um, ou financiamento legal, na novilngua de Vaccari, o segundo tesoureiro do PT preso num prazo de um ano e meio. 
     Essa verso j havia sido desmentida por empresrios. Eles confirmaram que pagaram propina e que o tesoureiro usou a Justia Eleitoral para esconder o crime. A novidade  que Vaccari, segundo as autoridades, tambm praticou o bom e velho caixa dois, que teria custeado uma despesa da primeira campanha presidencial de Dilma Rousseff. Ao determinar a priso dele, o juiz Srgio Moro relatou informaes prestadas por Augusto Mendona, executivo da Setal. Um dos delatores do petrolo, Mendona disse que, em 2010, Vaccari determinou a ele que repassasse 2,5 milhes de reais  Editora Atitude, controlada por sindicatos ligados  CUT e ao PT. O dinheiro, de acordo com o delator, foi descontado da propina que a empreiteira devia ao partido como contrapartida por contratos na Petrobras. Os pagamentos comearam a ser realizados em junho daquele ano. Quatro meses depois de a Setal passar a desembolsar a propina, na vspera da eleio, a grfica imprimiu 360.000 exemplares da Revista do Brasil, edio  que trazia na capa a pr-candidata Dilma Rousseff e o ttulo "A vez de Dilma". 
     O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) puniu a grfica por propaganda eleitoral irregular a favor da petista. Depois de eleita, Dilma nomeou o ex-vice-presidente da CUT Jos Lopez Feijo, um dos comandantes da Editora Atitude, para um cargo de destaque na Secretaria-Geral da Presidncia, onde ele despacha at hoje. Disse o juiz Moro: "Observo que, para esses pagamentos  Editora Atitude, no h como cogitar, em princpio, de falta de dolo dos envolvidos, pois no se trata de doaes eleitorais registradas, mas de pagamentos efetuados, com simulao, total ou parcial, de servios prestados por terceiros, a pedido de Joo Vaccari". Como estratgia de defesa, Dilma tenta erguer uma espcie de cordo sanitrio entre ela e o tesoureiro do PT. A suspeita de caixa dois pe em xeque a solidez dessa barreira, que tambm est ameaada por outros dados de conhecimento das autoridades. Aps a descoberta do mensalo, o PT adotou um novo modelo de arrecadao e instituiu dois tesoureiros  um para o partido, o outro para o candidato a presidente. Dilma alega que Vaccari atuava apenas para o partido. No  bem assim. 
     Em 2014, a campanha dela recebeu cerca de 30 milhes de reais do diretrio nacional petista. Esse dinheiro foi coletado pelo prprio Vaccari. H detalhes sobre isso. Barusco, por exemplo, contou s autoridades que, em 2010, Renato Duque pediu ao representante da empresa holandesa SBM no Brasil, Jlio Faerman, 300.000 dlares para a campanha presidencial de Dilma, "provavelmente atendendo a pedido de Joo Vaccari, o que foi contabilizado  poca como pagamento destinado ao Partido dos Trabalhadores". Na semana passada, Jonathan Taylor, um ex-diretor da SBM, disse  Folha de S.Paulo que prestou depoimento e entregou 1000 pginas de documentos da empresa  Controladoria-Geral da Unio (CGU) entre agosto e outubro de 2014, antes de Dilma vencer a eleio presidencial. A CGU, no entanto, s abriu uma investigao formal em novembro, quando a petista j estava eleita. Taylor e a oposio alegam que a CGU prevaricou para beneficiar a candidata do governo. 
     Vaccari  um quadro da confiana de Lula. Ele s assumiu o cargo de tesoureiro do PT porque contou com a chancela do ex-presidente e de petistas grados, como o ministro Ricardo Berzoini (Comunicaes), encantados com sua capacidade para levantar recursos desde os tempos em que comandava uma cooperativa habitacional ligada aos bancrios, a Bancoop, suspeita de alimentar o caixa dois petista. Foram esses padrinhos que tentaram segurar Vaccari no cargo. Foram eles tambm que, depois de o companheiro ser preso, decidiram afast-lo da funo com  as devidas manifestaes de crena em sua inocncia. Lula e o PT sabem onde o calo aperta e conhecem todos os servios prestados por Vaccari. Dilma diz desconhec-los. Em negociao para fechar um acordo de delao premiada, o engenheiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, pode esclarecer qual o verdadeiro nvel de proximidade entre Vaccari e os dois presidentes da Repblica eleitos pelo PT. 
     Conforme VEJA revelou, Pessoa disse a subordinados ter negociado diretamente com Vaccari o repasse de 30 milhes de reais  em propinas travestidas de doaes eleitorais legais  a candidatos do PT em 2014. Desse total, pelo menos 10 milhes de reais teriam como destino a campanha  reeleio de Dilma. Num bilhete escrito na carceragem da Polcia Federal, Pessoa afirmou que Edinho Silva, ministro de Comunicao Social e tesoureiro da campanha presidencial de Dilma em 2014, deveria estar "preocupadssimo". No   toa. A oito dias do segundo turno da eleio passada, Pessoa se reuniu com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, para tratar de um financiamento do banco para as obras do Aeroporto de Viracopos. Segundo o empresrio, Coutinho, ao final do encontro, lhe disse que ele seria procurado por Edinho Silva. Dito e feito. Dias depois, a campanha de Dilma conseguiu mais 3,5 milhes de reais da UTC. Na semana passada, em depoimento  CPI da Petrobras, Coutinho negou que tivesse tido uma conversa reservada com Pessoa e participado de qualquer operao de arrecadao de doao eleitoral. "Se o Ricardo Pessoa falar, ele destruir o Vaccari", conta uma pessoa prxima do empreiteiro. 
     Tesoureiro do PT desde 2010, Vaccari cobrava solidariedade dos petistas sob a alegao de no ter enriquecido, tal qual ocorrera com renomados consultores da legenda, como os ex-ministros da Casa Civil Jos Dirceu, Antonio Palocci e Erenice Guerra. O PT era a "igreja"  como ele se referia ao destino do dinheiro que arrecadava clandestinamente. Ao prend-lo, Moro mostrou que de sagrado no havia nada na atuao de Vaccari. O juiz destacou que o patrimnio da filha do tesoureiro, uma estudante sem rendimentos tributveis, saltou de 240.000 para 1 milho de reais entre 2009 e 2014. A cunhada de Vaccari fechou um negcio imobilirio com a OAS, uma das empreiteiras investigadas no petrolo. Teve 100% de lucro. A priso do tesoureiro serve de combustvel para o desgaste de imagem do PT, que vive sua maior crise em 35 anos de vida. Acuada, a presidente Dilma teve de ceder a articulao poltica ao PMDB e a conduo da economia a Joaquim Levy. J o ex-presidente Lula no aparece mais na liderana nas pesquisas sobre a prxima sucesso presidencial  e foge de aparies pblicas por temor de ser hostilizado. Em vrias regies do pas, o PT deixou de ser a legenda preferida dos eleitores. 
     Entre os dirigentes, j h quem tema at mesmo a extino do partido. O PT se tornou imagem e semelhana da corrupo, sinnimo de maracutaia ou malfeito, vulgarizou as instituies e rebaixou a prtica poltica. Seus lderes apostam no congresso nacional do partido, em junho, para reorganizar a tropa e sair das cordas a tempo de atenuar uma derrota que se anuncia acachapante na eleio municipal de 2016. Os textos preparados pelas cinco principais alas petistas para o congresso, no entanto, mostram que ser difcil a recuperao da imagem e da popularidade. Eles reclamam do ajuste fiscal e prometem apoio apenas se o Plano Levy  "ortodoxo", "conservador", "de direita"  for deixado de lado j no fim deste ano, quando se esperam os primeiros resultados positivos. Sobre a corrupo, as alas dizem ser necessrio combat-la. Uma obviedade. Mas no h referncia a petistas investigados nem s graves denncias do petrolo. Reproduz-se o discurso segundo o qual nenhum governo combateu a roubalheira como o do PT. Essa  a resposta recomendada pela corrente do ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, ao que eles chamam de "narrativa de criminalizao do PT". Desse jeito, o partido dificilmente trocar as "pginas policiais pelas pginas polticas", a meta traada. A "igreja" caiu.

METSTASE
O mtodo  o mesmo desde o primeiro governo Lula, em 2003. O PT aparelha as estatais, cobra propina de empresas que tm contratos com elas e, com o dinheiro desviado, abastece campanhas polticas e contas bancrias de seus militantes.
CORREIOS -  Lula entregou as principais diretorias da estatal aos partidos aliados. As licitaes eram dirigidas para beneficiar os empresrios que pagavam propina. O dinheiro era distribudo entre os parlamentares governistas. O mtodo foi revelado em 2005 por VEJA e deu origem ao escndalo do mensalo.
IRBBrasilRE - Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) - O modelo de corrupo criado pelo governo petista estendia-se a outras empresas estatais. Havia, inclusive, metas fixas de arrecadao de propina. O presidente do IRB revelou que entregava pessoalmente ao ento presidente do PTB, Roberto Jefferson, uma mesada de 400.000 reais.
INFRAERO - Aeroportos Brasileiros -  Com as diretorias sob controle de polticos, a estatal responsvel pelo gerenciamento dos aeroportos brasileiros tambm dirigia licitaes para determinadas empreiteiras em troca de propina. Uma investigao revela que esto envolvidas no esquema as maiores construtoras do pas.
PETROBRAS - Mesmo com os mensaleiros presos e condenados, o esquema de corrupo continuou a operar, inclusive durante o governo Dilma Rousseff. Para fecharem contratos com a Petrobras, as empreiteiras pagaram pelo menos 4 bilhes de reais em propina.
CAIXA ECONMICA FEDERAL - A polcia descobriu que a mesma tecnologia para avanar sobre o cofre do Banco do Brasil foi utilizada contra a Caixa Econmica. O ex-secretrio de comunicao do PT Andr Vargas, j preso, direcionou contratos de publicidade do banco a agncias de alguns comparsas.
ELETROBRAS  Eletronorte -  Como um cncer, a corrupo se espalhou por todos os rgos pblicos. Na semana passada, a Polcia Federal realizou uma operao para colher provas do pagamento de propina nos contratos da Eletronorte. Um ex-diretor da estatal foi preso por enriquecimento ilcito.
ELETROBRAS  Eletronuclear - A estatal responsvel pelas usinas nucleares tambm foi cooptada. Em depoimento  polcia, o presidente da empreiteira Camargo Corra contou que, escolhido para construir a usina Angra 3, se comprometeu a pagar 30 milhes de reais em propina ao PMDB (veja a reportagem na pg. 70)


3#2 OS TUCANOS SOBEM O TOM
As manifestaes anti-Dilma, o enfraquecimento de Lula e o receio de ver a concorrncia ocupar o posto de porta-voz da oposio levam o PSDB a apoiar o impeachment.
MARIANA BARROS

4 DE NOVEMBRO DE 2014 -  "No acho que exista nenhum fato especfico que leve a impeachment" 
11 DE MARO DE 2015  "Ns no proibimos nem estamos proibidos de dizer a palavra impeachment, ela apenas no est na agenda do PSDB". 
14 DE ABRIL DE 2015 - "Impeachment no  golpe, impeachment  uma previso constitucional". 

     Desde a semana passada, o PSDB, o principal partido de oposio do pas, est oficialmente empenhado em defender o encaminhamento ao Congresso de um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na boca das lideranas da sigla, o discurso sobre o tema passou de frio a borbulhante em um ms. At pouco antes da manifestao do dia 15 de maro, os tucanos estavam convencidos de que embarcar na tese do impeachment seria um erro. Em reunio no Instituto Fernando Henrique Cardoso, avaliaram que faltavam trs elementos fundamentais para sustentar o pedido: um fato jurdico consistente, o apoio da populao e a perspectiva de tirar o PT do poder tirando Dilma do governo. Isso porque, com a queda da presidente e a ascenso do vice Michel Temer, o PSDB seria fatalmente chamado a dividir a governana com o PMDB, tornando-se, assim, scio da runa que est fadada a ser este mandato, raciocinavam os tucanos. Dessa forma, diziam eles, o impeachment nada mais seria do que a pavimentao do caminho para que o ex-presidente Lula fizesse sua volta triunfal em 2018. No que tenham mudado de ideia agora. A situao  que ficou diferente, afirmam. 
     A popularidade de Lula despencou, a populao foi s ruas, gritou "Fora, Dilma" e bateu panelas contra a presidente. Segundo o Datafolha, 63% dos brasileiros apoiam o impeachment. No campo dos "elementos jurdicos", novos escndalos surgiram. O da "pedalada" fiscal , na viso da oposio, o flanco mais vulnervel do governo hoje, embora no seja o nico (leia o quadro na pgina ao lado). Por fim, internamente, o PSDB tambm viu surgir algumas novidades. Um ncleo de deputados intitulados "cabeas pretas" (a expresso nasceu da contraposio aos "cabeas brancas", como so chamados os tucanos de alta plumagem e quilometragem capitaneados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) uniu-se para pressionar o lder do partido Acio Neves a encampar a tese do impeachment. 
     Formado pelos deputados Bruno Arajo, Nilson Leito, Marcus Pestana e Carlos Sampaio, o grupo se autointitula, nas palavras de um deles, "a turma da bazuca". Prximo deles est o senador Cassio Cunha Lima, um dos primeiros no partido a levantar a bandeira do impeachment ("a presidente terceirizou a gesto da economia e a gesto da poltica, mas no pode terceirizar o crime de responsabilidade que praticou", declarou o senador h duas semanas). Na ltima tera-feira, esse grupo engrossou o coro dos parlamentares que cercaram Acio pouco antes da reunio da bancada. A inteno era comunicar ao ex-governador que a posio unnime do partido era de apoio ao pedido de afastamento da presidente. Os parlamentares disseram a Acio que o PSDB est diante do que talvez seja "a ltima oportunidade" de derrubar de uma vez o governo do PT e que abrir mo dessa chance seria repetir o erro de 2005  no mensalo, o partido optou por deixar Lula "sangrando" e foi derrotado no ano seguinte. A perda de espao para outras lideranas que no hesitam em pedir a sada da petista, notadamente o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), foi outro argumento apresentado ao senador tucano. 
     No fim da reunio com a bancada, Acio Neves perguntou quem dos presentes era a favor do impeachment. Todos levantaram a mo. O ex-governador saiu dali e deu sua mais forte declarao a favor do processo. Disse que o partido apoiar a medida se ficar comprovado que Dilma cometeu crime de responsabilidade. Ao elevar o tom, mas manter o comedimento, Acio antecipa o ritmo que o PSDB adotar daqui para a frente. O senador  da opinio de que no  possvel derrubar uma presidente eleita com 54,5 milhes de votos com base em "pedaladas" fiscais. Alm disso, acredita, o impeachment neste momento desagradaria inclusive aos empresrios ligados ao PSDB, dado o tumulto que causaria na economia. Outro motivo a frear os mpetos do lder tucano responde pelo nome de Eduardo Cunha. Acio defende a ideia de que, enquanto o PMDB no se alinhar com a oposio, a iniciativa do impeachment estar fadada a morrer, j que cabe ao presidente da Cmara aceitar ou arquivar o pedido no momento em que ele chegar ao Congresso. Na semana passada, Dilma nomeou Henrique Eduardo Alves para o Ministrio do Turismo, como queria Cunha. Na quinta-feira  noite, jantou com o presidente da Cmara. Para Acio, isso  suficiente para concluir que um pedido de impeachment neste momento teria a gaveta como destino certo. Para a oposio, a fritura da presidente Dilma Rousseff j est em curso. Mas, se depender do lder do PSDB, ela seguir em fogo brando. 

OS CAMINHOS DO IMPEACHMENT
A oposio estuda duas alternativas que, na opinio de suas lideranas, poderiam sustentar um pedido de afastamento da presidente Dilma. So elas:

A- CRIME DE RESPONSABILIDADE
O QUE  - A Constituio define como crimes de responsabilidade: atos do presidente da Repblica que atentem contra o Poder Legislativo, o Poder Judicirio, o Ministrio Pblico, o exerccio dos direitos individuais e sociais, a lei oramentaria, a probidade administrativa e o cumprimento de leis e decises judiciais. Como a Carta, de 1988,  anterior  emenda da reeleio, de 1997, o Judicirio ter de definir se, como defendem alguns juristas, aes cometidas no mandato anterior podem valer para o atual. 
POR QUE SE APLICARIA  PRESIDENTE - A oposio v indcios de que Dilma Rousseff cometeu esse crime em quatro episdios: na "pedalada" fiscal apontada pelo TCU, na violao da lei oramentaria, que pode levar  rejeio das contas do governo pelo mesmo rgo, na suposta tentativa da CGU de segurar as investigaes sobre o petrolo e no uso dos Correios para a distribuio de folhetos de sua campanha em 2014. 
COMO  O PROCESSO - Uma vez comprovada a acusao, o pedido de impeachment pode ser feito por qualquer cidado ou parlamentar. Cabe ao presidente da Cmara, atualmente Eduardo Cunha, decidir se o processo ser apresentado ao plenrio ou arquivado. Se ele optar por apresent-lo, o pedido ser votado pela Cmara dos Deputados. Em caso de apoio de ao menos dois teros dos deputados, o presidente  afastado por at 120 dias. O afastamento torna-se definitivo se o Senado aprovar o impeachment, com dois teros dos votos. O vice assume. 

B- CRIME ELEITORAL
O QUE  - Qualquer ao que, praticada durante uma campanha eleitoral tanto por candidatos quanto por eleitores, seja vetada pelo Cdigo Eleitoral ou por outras leis. Isso inclui, por exemplo, compra de votos ou uso da mquina pblica para beneficiar um candidato. 
POR QUE SE APLICARIA  PRESIDENTE - Durante a disputa eleitoral do ano passado, os Correios, uma empresa pblica, distriburam 4,8 milhes de panfletos da ento candidata do PT  Presidncia, Dilma Rousseff, sem que o partido pagasse pelo servio, segundo apontou uma auditoria do Tribunal de Contas da Unio. O caso fez com que o PSDB entrasse com uma ao no Tribunal Superior Eleitoral pedindo a impugnao da chapa petista, que inclui tanto Dilma quanto seu vice-presidente, Michel Temer. O processo foi aberto em janeiro e, desde 19 de maro, encontra-se com o ministro Gilmar Mendes, que pediu vista. Ainda no h previso para ir a julgamento. 
COMO  O PROCESSO - Os sete juzes do TSE analisaro o caso. Se considerarem que houve crime eleitoral, o processo seguir para o Supremo Tribunal Federal, e ser julgado pelos onze ministros. Caso a corte vote pela impugnao da chapa da presidente, tanto ela quanto seu vice sero destitudos. No seu lugar, assume o segundo colocado do pleito no ano passado, o senador mineiro Acio Neves, do PSDB. Essa via, no entanto,  considerada a menos provvel tanto pelos especialistas quanto pelos prprios poltico. 


3#3 O JURISTA QUE TEM LADO
A queda de brao entre o governo e o Congresso pela indicao do futuro ministro do Supremo Tribunal Federal transformou o que seria um embate saudvel em um imprudente jogo de interesses, ameaas e chantagens.
ADRIANO CEOLIN

     A Constituio diz que cabe ao presidente da Repblica indicar os ministros do Supremo Tribunal Federal. O Senado deve sabatin-los e, em sendo aprovados, o STF tem de acolh-los em seus quadros, nos quais eles atuaro livremente, sem nada a dever a quem os indicou ou a quem os aprovou. Dessa maneira se cumpre o preceito constitucional ptreo da independncia e harmonia entre os trs poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judicirio. Esse bal clssico da democracia, porm, parece estar sendo degradado em baile de gafieira no processo que pode levar o advogado Luiz Edson Fachin a vestir a toga da corte constitucional brasileira. 
     Depois de oito meses de hesitao, a presidente Dilma Rousseff indicou na semana passada o advogado para a vaga deixada por Joaquim Barbosa. Professor visitante do King's College, de Londres, e pesquisador convidado do Instituto Max Planck, da Alemanha, Fachin  professor titular de direito civil na Universidade Federal do Paran. A toga do STF j foi vestida por gente com credenciais formais bem menos ilustres. A imponente fachada acadmica de Fachin esconde uma militncia to abertamente esquerdista que assustou at o ex-presidente Lula, quando ele se recusou a indicar o jurista para o Supremo. Fachin foi colaborador da Associao Brasileira de Reforma Agrria, entidade que, na dcada de 80, teve como conselheiro o lder do MST Joo Pedro Stedile. Nas eleies de 2010, Fachin apareceu na propaganda eleitoral do PT apresentando-se como porta-voz de juristas "que tomaram lado"  no caso em favor da candidata Dilma Rousseff. 
     A formao acadmica impecvel e a reputao de legalista de Fachin conflitam com a prtica poltica heterodoxa e o alinhamento partidrio automtico com o PT. Mas, at aqui, nada de muito novo. Como gosta de lembrar Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF, que foi militante petista antes de ascender  corte, "o peso da instituio prevalece sobre as idiossincrasias ideolgicas ou de outra natureza dos novatos". Com as notrias excees conhecidas pelos brasileiros no julgamento do mensalo, tem sido assim, e, at agora, o completo aparelhamento do STF foi evitado. Mas a pergunta que no quer calar : "At quando?". 
     O preceito da independncia e harmonia entre os poderes parecia, at a semana passada, estar sendo seguido. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), havia antes abandonado a costumeira diplomacia em relao ao Palcio do Planalto para sentenciar que um indicado para o STF "com a digital do PT" certamente seria rejeitado pelo plenrio. Como o Executivo no quer passar pelo vexame de ter um indicado seu reprovado  o que aconteceu pela ltima vez em 1894 , muitos chegaram a imaginar que o nome de Fachin seria substitudo pelo de outro jurista. 
     Deu-se, ento, a transformao do bal clssico institucional em uma coreografia menos rgida. Dilma formalizou a indicao de Fachin no Senado, Renan saudou a deciso do Executivo, comprometeu-se a nomear um relator para o processo ainda nesta semana e marcou a sabatina para o dia 29. Tudo no ritmo do atabaque que acompanha os tradicionais rituais de acasalamento poltico por interesse em Braslia. 
     Atribui-se a celebrao do acordo a Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil. Segundo relatos de polticos em posio de saber o que ocorreu, Renan teria sido tranquilizado por Mercadante de que o Planalto (leia-se: o prprio Mercadante) atuaria junto ao Supremo Tribunal Federal para evitar que a corte analisasse um processo que h oito anos lhe causa enormes dores de cabea. Em 2007, VEJA revelou que uma empreiteira pagava penso alimentcia para uma filha do senador. O caso foi investigado e, em janeiro de 2013, a Procuradoria-Geral da Repblica denunciou Renan ao STF. At agora a denncia, cujo relator  o ministro Ricardo Lewandowski, no foi aceita. O Cdigo Penal e o de conduta dos parlamentares se agitam s de imaginar que se deve a uma negociao subalterna a aparente mudana de posio de Renan em relao  rejeio de qualquer candidato ao STF "com a digital do PT". 
     O que se sabe com toda a certeza : Lewandowski disse a Renan que Fachin  "uma pessoa decente" e, portanto, seu candidato. Ele, se aprovado, vai herdar todos os casos que atualmente esto sob a responsabilidade do ministro, entre eles a denncia pendente contra Renan. Jogo bruto. Fato  que o mpeto do senador arrefeceu. "Eu s tenho um voto", respondeu Renan quando lhe perguntaram se vetaria indicados com digitais petistas. O presidente do Senado aconselhou-se com outros integrantes do STF. Ouviu de um deles que no deveria "se submeter a chantagem". Procurado por VEJA, Renan afirmou que "no percebeu chantagem ou presso de ningum". Lewandowski confirmou que apoia o nome de Fachin. Mercadante negou que tenha conversado com Renan sobre seu processo no Supremo. Tome percusso. 


3#4 O QUE , O QUE ...
A PF abre inqurito para identificar o autor de cartas com charadas enviadas a Ricardo Pessoa. Podem ser obra de um maluco, mas o empreiteiro est assustado. 
ALEXANDRE HISAYASU

     Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, est para o escndalo do petrolo como um maarico para um barril de gasolina   s acion-lo para a coisa toda ir pelos ares. Por isso, toda vez que ele chega perto de fechar um acordo de delao premiada, foras poderosas se organizam para tentar demov-lo da ideia. Foi com esse objetivo que o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, por exemplo, se reuniu com advogados do empreiteiro em um encontro extra-agenda em fevereiro passado. Naquela ocasio, Pessoa, preso desde novembro de 2014 na carceragem da Polcia Federal (PF) em Curitiba (PR), estava inclinado a contar o que sabe  Justia, o que acabou no ocorrendo. Agora, quando ele parece de novo decidido a falar, as presses ressurgem. S que, desta vez, elas vieram pelo correio. Do fim de maro at o incio deste ms, o empreiteiro recebeu trs cartas que o deixaram assustado  to assustado que ele decidiu entregar o material  PF. 
     As cartas foram escritas para dar,  primeira vista, a impresso de que o remetente  uma criana. So assinadas por algum que se identifica como sobrinho (ou sobrinha) de Pessoa e se refere  cadeia como "hospital". Trazem desenhos singelos no envelope e erros de pontuao e grafia.  medida que o texto avana, no entanto, fica evidente que no h nada de infantil nele. O autor insinua que conhece alguns hbitos e receios de Pessoa  faz referncias veladas ao fato de ele fumar, ter o costume de guiar o prprio carro e temer ficar na cadeia de "90 a 180 anos", um clculo que o empreiteiro j compartilhou com interlocutores prximos ("A mame disse que meu titio vai ficar a por 90 a 180 dias e a poderemos brincar", diz um trecho da segunda carta recebida por Pessoa). 
     Em alguns momentos, o autor sugere precisar que o dono da UTC faa algo por ele ("Titio, me ajude a resolver este quebra-cabea, pea a ajuda de seus novos amigos doentes"). Em outros, d a impresso de estar oferecendo ajuda ao empreiteiro ("Eu tambm j estive doente, fiz uma cirurgia e sa vivo. E a clnica ainda est aberta"). As trs cartas foram postadas em Diadema, na regio do ABC paulista, entre 24 de maro e 4 de abril. Duas so assinadas por "Chyren", trazem no cabealho a sigla SBC (So Bernardo do Campo) e no remetente o endereo Al. Araguaia, 3571, Barueri, que vem a ser o de uma das unidades da Engevix. Numa das cartas, Chyren usa como "sobrenome" o nome do presidente do conselho de administrao da Engevix, Cristiano Kok. 
     Em outra, o cabealho, o nome do remetente e tambm o endereo mudam. O endereo de origem passa a ser SP (So Paulo), o autor assina como "sobrinho Avancini" e o remetente agora  Faria Lima, 1663, Pinheiros. No lugar, funciona um escritrio da construtora Camargo Corra. A Camargo e a Engevix, assim como a UTC, so acusadas de envolvimento no petrolo. O vice-presidente da Engevix, Gerson Almada, divide a cela na carceragem da PF com Pessoa. Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corra, chegou a ficar detido em Curitiba mas foi solto em maro, depois de fechar um acordo de delao premiada com a Justia. 
 provvel que as cartas no passem de coisa de maluco? Sem dvida. Mas no  o que pensa Ricardo Pessoa. Assim que recebeu a primeira, o empreiteiro sentiu-se ameaado. Chamou um de seus advogados, Alberto Toron, e pediu-lhe que repassasse o material a delegados da fora-tarefa da Lava-Jato. A Polcia Federal ento instaurou um inqurito e informou o Ministrio Pblico da existncia da correspondncia. Sobre ela, diz o procurador da Repblica Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos integrantes da fora-tarefa da Lava-Jato: "Obviamente quem escreveu isso no  uma criana. E fez o que fez com a inteno de, no mnimo, deixar o preso perturbado". 
     Como todas as correspondncias entregues aos detentos passam por uma triagem feita por agentes, a polcia suspeita que o "sobrinho" de Pessoa tenha dado uma aparncia e tom infantil aos envelopes e ao texto para aumentar suas chances de burlar a inspeo. Nas trs cartas, o que mais intrigou os policiais so as charadas que o autor prope ao empreiteiro decifrar (veja o quadro ao lado). Nem a defesa de Pessoa nem a PF quiseram comentar o contedo das correspondncias. VEJA apurou, no entanto, que a polcia j tem ao menos um suspeito de ser o autor das cartas. 
     O empreiteiro Ricardo Pessoa est longe de ser um preso qualquer. "Chefe do clube do bilho", conforme testemunhas, ele liderava o grupo de empresas que se juntaram para fraudar as licitaes da Petrobras e estufar o bolso de funcionrios e polticos corruptos que acobertavam o esquema. Nessa posio, reuniu informaes de altssimo teor inflamvel, algumas das quais j fez vir a pblico desde que foi preso. Como revelou VEJA, ele declarou, por exemplo, que em 2014 repassou ao PT e  campanha da presidente Dilma Rousseff 30 milhes de reais desviados da Petrobras. Disse tambm que ajudou o ex-ministro Jos Dirceu a pagar despesas pessoais por meio da simulao de pagamentos por contratos de "consultoria". Noutra ocasio, em anotaes feitas na cadeia, escreveu que o tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff, Edinho Silva, "est preocupadssimo", j que "todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso da Operao Lava-Jato doaram para a campanha de Dilma". E completou: "Ser que falaro sobre vinculaes campanha x obras da Petrobras?". 
     No momento em que o homem nitroglicerina ameaa mais uma vez contar o que sabe, qualquer solavanco pode pr tudo a perder. At as cartas de um maluco. 

TRS CHARADAS PARA RICARDO PESSOA
As cartas que assustaram o empreiteiro preso e seus quebra-cabeas.

"A CLNICA T ABERTA"
24/03/2015  Na primeira carta, o autor, que assina "Chyron", diz ao "tiozinho querido" que est com "muita saldade" (sic). Afirma que sua "me" no o deixa visit-lo no "hospital" e fala: "Titio, resolvi o quebra-cabea que voc me deu". Desenha uma casa, uma rvore, uma serra e uma estrela e, abaixo das imagens, escreve: "Titio, fiquei doente por muito tempo e no recebia visita.  muito ruim ficar no hospital e no ver os amigos. Fiz cirurgia + sa vivo, e a clnica ainda t aberta". A interpretao de quem analisou o trecho  que o autor da carta esteve preso tambm, mas conseguiu sair da cadeia  e por meios que continuam disponveis.

"LUA COM 4 LETRAS"
30/3/2015  Na segunda carta, o autor, que agora assina como menina ("sua sobrinha Chyron"), pergunta se os "remdios" que Pessoa est recebendo "so doces ou amargos". Queixa-se de que o "tio" no respondeu  carta anterior nem "resolveu o quebra-cabea". Prope outra charada: "Titio, vai a + uma pergunta: o que falta na Lua com 4 letras?". Embaixo do desenho de um automvel, escreve: "Titio dirigindo seu carro". Pessoa tem por hbito dirigir o prprio carro, um Honda CR-V preto.

MENO A UM EX-PRESIDENTE?
4/4/2015  Chyron diz ter ficado sabendo que o tio est "com um problema". "Acho que posso ajud-lo", diz. "Escreva para mim e me diz o que precisa enviar. Precisa de cigarro, voc fuma, o que posso enviar para voc, entrego para quem a encomenda?" E prope a ltima charada: "uma frase com 21 letras". Indica quantas letras teria cada uma das palavras da "frase". E termina dizendo que, completa, ela tem quatro "L".


3#5 PROPINA RADIOATIVA
Ex-presidente da empreiteira Camargo Corra disse que, para vencer licitao, consrcio se comprometeu a pagar 30 milhes de reais em subornos no ano passado.
HUGO MARQUES

     Mensalo, petrolo... No dicionrio dos escndalos, so duas palavras criadas para tentar dar a devida dimenso aos ltimos grandes golpes contra os cofres pblicos. Eis mais um. Preso em novembro do ano passado junto com representantes de outras construtoras envolvidas em fraudes contra a Petrobras, o executivo Dalton Avancini, ex-presidente da empreiteira Camargo Corra, assinou um acordo de delao premiada com o Ministrio Pblico e topou revelar coisas que at ento no faziam parte da investigao. Durante trs semanas, Avancini prestou quinze depoimentos aos policiais federais e procuradores. Num deles, como j se sabe, revelou que a Camargo Corra pagou propina para participar das obras da usina de Belo Monte, uma das jias da coroa entre as obras de infraestrutura do setor eltrico. Era s o comeo. VEJA teve acesso a outras revelaes igualmente explosivas feitas por Avancini. Na principal delas, o executivo declarou que as empreiteiras escolhidas para construir a usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro, se comprometeram a distribuir 30 milhes de reais a funcionrios da Eletronuclear e aos polticos que comandam a estatal. 
     Segundo Avancini, a licitao era de cartas marcadas. Os dois consrcios vitoriosos acertaram o pagamento de propina em troca do direcionamento do edital. O acordo foi fechado diretamente com a diretoria da Eletronuclear, subsidiria da Eletrobras, e beneficiou UTC, Andrade Gutierrez, Odebrecht Queiroz Galvo, Techint e EBE, alm da prpria Camargo Corra. As empresas se comprometeram a pagar 1% sobre o valor global do contrato, estimado em 3 bilhes de reais. O dinheiro, afirma Avancini, seria distribudo a dirigentes da Eletronuclear e a polticos do PMDB que os apadrinham. O executivo diz que no cuidou diretamente da distribuio do dinheiro e que, por isso, no sabia informar o nome dos corruptos. O mtodo e os atores, porm, so os mesmos do petrolo. 
     Os empreiteiros se reuniam e combinavam entre si a cota de cada um no consrcio. De acordo com Avancini, o trambique no setor eltrico era feito pelo mesmo clube de empreiteiras que dava as cartas na Petrobras. O executivo diz que quem comandou a reunio para esquematizar o pagamento de propina aos polticos foi Ricardo Pessoa, dono da UTC, acusado de comandar o chamado "clube do bilho" da Petrobras. Ele deu detalhes de um encontro realizado em agosto do ano passado, na sede da UTC, em que o esquema foi fechado. 
     Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff disse que os crimes perpetrados contra a Petrobras so obra de "alguns indivduos" e, mais do que isso, ficaram no passado: "Do ponto de vista da gesto, a Petrobras est inteirinha, as questes que tinham de ser saneadas o foram". O problema para a presidente e seu governo  que os fatos so teimosos. O depoimento de Avancini mina a retrica oficial. Primeiro, porque o executivo diz que o acerto para a distribuio da propina em Angra 3 foi feito no ano passado, na reta final da licitao que definiu as construtoras responsveis pelas obras. Segundo, porque confirma a suspeita dos investigadores de que o esquema de corrupo que funcionava na Petrobras era replicado em outras reas do governo, entre elas o setor eltrico. Desta vez, as acusaes no partem de Paulo Roberto Costa nem de Alberto Youssef, os delatores que o governo, o PT e seus satlites tentam desqualificar a todo custo  quem est falando, agora,  um executivo que at meses atrs presidia uma das maiores construtoras do pas e, nessa condio, lidava diretamente com gente importante do governo. 
     Em outro depoimento, Dalton Avancini foi indagado sobre os pagamentos feitos pela Camargo Corra ao ex-ministro e mensaleiro condenado Jos Dirceu, outro alvo estrelado da Lava-Jato. Ele admitiu ter assinado o contrato e autorizado as transferncias de dinheiro  empresa do ex-ministro, mas disse desconhecer algum servio prestado por Dirceu  empreiteira. Para os procuradores,  mais uma evidncia de que os contratos de Dirceu s serviam para simular repasses de propina. Ao todo, a Camargo Corra pagou 900.000 reais  consultoria do ex-ministro. Ao todo, o petista recebeu 39 milhes de reais de empresas que tm interesses junto ao governo. Mensalo, petrolo, eletrolo...


